“Considero muito reconfortante a resistência do Augusteum, o fato de essa estrutura ter tido uma história tão atribulada e, mesmo assim, ter sempre conseguido se ajustar à loucura específica de cada época. Para mim, o Augusteum é como alguém que levou uma vida totalmente louca – alguém que talvez tenha começado como dona de casa, depois inesperadamente ficado viúva, em seguida virado dançarina para ganhar dinheiro, de alguma forma tenha se tornado a primeira dentista mulher do espaço sideral, e depois tentado a sorte na política – e que, mesmo assim, conseguiu manter intacta a consciência de si próprio durante cada reviravolta.
Olho para o Augusteum e penso que, no final das contas, talvez a minha vida na verdade não tenha sido tão caótica assim. É apenas este mundo que é caótico e nos traz mudanças que ninguém poderia ter previsto. O Augusteum me alerta para eu não me apegar a nenhuma idéia inútil sobre quem sou, o que represento, a quem pertenço ou que função eu poderia ter sido criada para executar. Sim, eu ontem posso ter sido um glorioso monumento a alguém – mas amanhã posso virar um depósito de fogos de artifício. Até mesmo na Cidade Eterna (Roma), diz o silencioso Augusteum, é preciso estar preparado para tumultuosas e intermináveis ondas de transformação.”
Li isso nesse fim de semana prolongado e, óbvio me vi nessa analogia. Desde quando nasci, minha vida está naturalmente em constantes mudanças. Primeira infância, idade escolar, puberdade, me vi adolescente e com um monte de interrogações mentais, doente, até que me descobri cristã, amando Jesus mais do que nunca, e o que Ele fez na minha vida, que foi um verdadeiro milagre. Me vi na fase de começar a flertar, 17/18 anos (sim, eu comecei a fazer isso um pouco tarde para o parâmetro atual), achei que tinha descoberto o homem da minha vida aos 19, um amigo de adolescência, muito erudito, músico, universitário, ou seja, para uma mocinha cheia de planos, ele era um partidão, o melhor dentre seus pretendentes, e ele quis me namorar, e apesar de querer muito, eu hesitei a pensar sobre isso alguns dias, até dizer sim. Namoramos sério, noivamos e nos casamos. Um ano e meio, talvez tenha durado todo esse processo, até o casório. Pouco tempo, mas eu o conhecia desde os 14 anos e, pensava que conhecia demais. Me casei com meu primeiro namorado e homem. E eu considerava isso muito importante, pois eram valores que eu prezava, e poderia levar pra eternidade.
Nossa filha veio um tempo depois sem planejarmos, mas preencheu nossos corações, o nosso lar, e a nossa sala com seus brinquedinhos sempre espalhados pelo tapete. Linda, feliz e sorridente. E eu agradecia tanto à Deus por viver àquela maneira, por ter uma ‘família’ linda, por ser tão fiel à ela, e tão cega para as coisas do ‘mundo’. Éramos o casal perfeito: não brigávamos, frequentávamos a casa dos amigos, tínhamos uma vida devocional e éramos exemplos pra muitos. Só que em algum momento, eu me perdi. Via e sentia isso. Vi que eu era tão meu marido, que eu nem sabia mais quem eu era, meus infinitos sonhos, minha profissão, minha identidade, eu. Cadê eu?
E o casamento, alguns anos depois não estava bem. Por mais que eu fingisse que estava, não, não estava. Ele havia mudado muito, não era mais aquele homem devoto à família, não ligava mais durante o dia pra saber se eu estava precisando de algo, ou se nossa pequena estava bem, e eu fui me tornando extremamente carente. Casada, só e carente. Casada, carente e solitária, e por várias vezes ouvi palavras tão duras, rudes e tão pobres que jamais ousaria repetí-las. Palavras tão doídas vindas de alguém que eu entreguei o meu ‘EU’.
Mas, quem eu era?
Sinceramente, eu não sabia até ouvir: ‘Não ligo pra você há algum tempo, não me importo com nosso casamento falido, e isso está muito nítido. Não quero mais essa vida. Não te amo mais e, eu preciso de um tempo.’
Tempo?
Era mais ou menos 2 horas da manhã, de uma madrugada de fevereiro.
Há alguns meses, já não dormia mais, nem conseguia, vivi meses de extrema ansiedade, e depressão. Sozinha. Noites e noites em claro, pensando, pensando e pensando. Perdida. Essa é a palavra. O que fazer diante da imagem que passávamos de casal perfeito? Como acabar com isso de um dia para o outro? E a nossa filha que tinha apenas 4 anos? E tudo o que ele pregava sobre filhos de pais separados? Sobre casais que divorciaram? E a Igreja? E os amigos? E nossas famílias? E as promessas que fizemos de ‘até que a morte nos separe’, e o compromisso de honrar? E todo peso religioso que eu ía carregar? O que eu ía fazer, porque eu não trabalhava, porque ele não permitia, pois segundo ele ‘quem cria os filhos são pais e mães presentes’? Mãe solteira, eu? D-I-V-O-R-C-I-A-D-A! Essa palavra pesava 200 toneladas na minha mente.
Achei que fosse pirar. Ele havia decidido ir embora. Já era definitivo. Mas não saía, e enrolou sua saída até quando pôde e, esperar esse fim de uma vez por todas, me adoecia mais a cada dia. Não dormia mais na mesma cama que ele. Não trocávamos bons dias, boas tardes ou boas noites. Nada. E ficamos assim durante uns meses, até tomar uma dose coragem e um resgate comovente de amor próprio preparei tudo na manhã do feriado de Tiradentes, arrumei cautelosamente todas as coisas dele, enquanto ele dormia, até que…
- O que você está fazendo?
- Te ajudando.
- Como assim?
- Você não decidiu sair de casa? Tem certeza disso? (eu ainda perguntei umas 5x, torcendo pra que numa dessas respostas, ele se arrependesse).
E, sim foram as 5 respostas às minhas 5 perguntas.
- Então, isso irá acontecer hoje. Respondi. Só dei um incentivo. Está tudo pronto e encaixotado, e se quiser, pode rever se esqueci de algo.
Sem falar nada, nem ele, nem eu, peguei a pequena filha e a poupei daquela cena. Fui pra casa da minha mãe, que morava perto, entreguei a cria pra ela e corri para o banheiro. Sentada no chão daquele lugar frio, eu tentava sufocar meu choro com uma toalha, e fiquei ali por algumas horas, infinitas horas, esperando que aquilo fosse um pesadelo e que eu acordaria a qualquer momento.
Mas não era.
Foi a dor mais doída que já havia sentido: o fim do amor que ainda era vivo em mim.
O fim de muitos sonhos, o fim de grandes expectativas, o fim de ver minha filha crescendo e convivendo ao lado dele, e se orgulhando de seu pai. Não era justo. Já que ele decidiu sozinho, sem me dar ao menos uma chance de rever o que possivelmente fiz de errado. Não era justo ter como recompensa um divórcio, depois de tantas e inúmeras dificuldades que passamos juntos, mas felizes. O que tinha acontecido de verdade, já que estávamos começando a alçar vôos maiores? E o silêncio sempre foi resposta. Era o fim. O meu? Não sabia, com sinceridade. Mas tinha certeza de que poderia morrer a qualquer momento. E, por várias vezes me vi no colo da minha mãe, chorando as duas. Eu, pela decepção, ela pela dor de ver uma filha sofrendo tanto. Mas graças a Deus pelos pais. Eles são tudo! E vi, o quanto eles se importavam comigo, me carregaram no colo. Me confortaram. Enxugaram tantas lágrimas insistentes. E me ajudaram muito com amor, a mim e à minha pequena.
Aos poucos, e com o passar dos dias, os amigos e conhecidos em comum, me dava notícias de que ele estaria se relacionando com outra pessoa durante o casamento, fato que se confirmou quando ele a assumiu sem dó e piedade, ou respeito, ou qualquer outra palavra que caiba aqui, já no mesmo mês que saiu de casa.
Foram 6 meses, dias e noites chorados. Até que um dia me levantei e disse a mim mesma: “Chega!”.
Procurei emprego, voltei a estudar e comecei com a terapia, que se arrastou por longos 3 anos. Os anos, e o dinheiro melhores investidos na minha vida. O meu psicólogo, abaixo de Deus, família e amigos irmãos, foi o grande responsável para a sacudida e guinada que se deram.
E, eu ainda o amei por dois anos. Chorava de quando em vez, invejava sua pseudo felicidade, e não achava justo o que ele tinha feito, da forma que fez, como fez. E eu tinha esperanças remotas de que um dia ele se arrependesse. Sim, tinha. Mas do amor, aprendi a respeitar a decisão do outro, aprendi que amar também era abrir mão e deixar que ele se fosse, para vê-lo feliz. Parece masoquismo, mas não é. Amor só faz bem, quando está bom para os dois. Quando o fiel da balança está desajustado, um lado pende mais que o outro. E dói, porque as cargas são desiguais e as medidas diferentes.
Quase 5 anos depois, ele me procurou pedindo perdão, dizendo que se pudesse voltar atrás, ele voltaria, que não sentia paz, que deveria ficar com quem realmente o amava… e um monte de ‘blá blá blá’ conhecido e bem comum de quem reconhece o peso e o valor do que perdeu. Perdeu mesmo e, pra sempre. Muita coisa havia mudado, eu muito mais.
E de verdade quero o melhor pra ele e sua família.
Hoje, sou outra. Por dentro e por fora. Tanto como SER, tanto sendo. Por fora, foram-se embora 34 kg. E, sim estou e me sinto linda! Agora, mais lindo ainda é a mudança interior. Cresci, amadureci, aprendi tanto sobre mim, reconheci minha força como ser humana, tenho sonhos, corro muito pra alcançá-los, sei o que quero, vou atrás e, consigo sempre. Sou forte, e MUITO sensível, apesar de parecer como primeira impressão a mulher mais inalcançável e inatingível do mundo, termino com excelência o que começo, seja o que for. E Deus me transformou em uma grande mulher, Ele que sempre foi e é presente na minha vida. Nada é por acaso. E só conseguimos entender depois que passa. Tudo é lição e aprendizado. Leva-se um tempo. Passou pra mim, e né por nada não, sofri pra caraaaalho! E, um dia acordei pela manhã procurando pelo amor e mágoa dentro do meu coração, e eles tinham ido embora. Eu havia alcançado o perdão! O que me deixou absurdamente feliz! Eu o perdoei. Sinceramente, perdoei. Me perdoei da culpa. Jamais serei perfeita, mas faço tudo o que posso, com o tempo que eu tenho pela minha filha e, sou muito grata a Deus porque ele virou meu ex-marido, mas continou sendo pai e deu à nossa filha um irmãozinho lindo, que ela ama tanto!
Não sei quais os planos de Deus para meu futuro. Sei dos meus, mas é Dele que vem a certeza, e a batida do martelo.
Não sou perfeita, enfatizo, e só por isso, sinto o amor, graça e perdão sendo derramados todos os dias sobre mim e os meus.
Quero alcançar o céu, não como em Babel, pra ser tão grande quanto Deus, quero alcançar o céu, no sentido de que ele seja o meu limite, e que todas as coisas estejam sob Seu controle. Quem poderá me impedir?
Um dia bem à flor da dor, me disseram que eu ajudaria a muitos com a experiência que tive. Juro que me emputeci ao ouvir aquilo, porque PQP, eu não queria era estar passando por aquela situação. Contudo, não sei se já ajudei, mas sou boa ouvinte, e uma sobrevivente de casamento e sonhos frustrados. Tudo é suportável, e possível para nos moldar, mesmo a traição quando se é muito fiel, mesmo a solidão de Natais e Anos Novos passados sozinha. Tudo passa e o tempo ainda é o melhor remédio. Um dia se ama de novo, e de novo, e de novo… até que encontramos alguém com poderes de super heróis, capazes de transformar um dia cinza ou uma noite de muito estresse, em momentos fabulosos. Eles sempre chegam na hora certa!
Há amor.
Há vida após a separação, divórcio, seja o que for.
Dá pra continuar sendo pai/mãe, mesmo vivendo em casas separadas.
Tudo se ajusta.
E, como eu sempre [orgulhosamente] digo, NADA MELHOR QUE UM RECOMEÇO! E como Liz, citou no fragmento do livro Comer, Rezar e Amar: é preciso estar preparado para tumultuosas e intermináveis ondas de transformação!
Estejamos sempre prontos!
O por quê do título?
A flor de Lótus nasce na lama e só se abre quando atinge a superfície, onde só então mostra suas luminosas e imaculadas pétalas, que são autolimpantes, isto é, têm a propriedade de repelir microorganismos e poeiras. É também a única planta que regula seu calor interno, mantendo-o por volta de 35º, a mesma temperatura do corpo humano. O botão da flor tem a forma de um coração, e suas pétalas não caem quando a flor morre, apenas secam. Assim, para os Chineses, o passado, o presente e o futuro estão simbolizados, respectivamente, pela flor seca, pela flor aberta e pela semente que irá germinar.